quarta-feira, 30 de setembro de 2020

OS BODDHISATTVAS

 


                   OS BODDHYSATTVAS.

 

         É certo que viemos das energias primordiais e a ela retornaremos. Poderei até dizer: saímos de Deus e a Ele retornaremos. A nomenclatura sempre será uma imperfeita tradução daquilo que pensamos; as letras são grosseiras formas de se expressar, ou materializar o pensamento, o qual não é senão uma das energias mais sutis que nos acompanha, a todo o momento, emitindo e captando, cuja abstração, muitas vezes, a nomenclatura deixa muito a desejar. Utilizamos nomes para que possamos elaborar, de maneira didática, muitos conceitos, cuja abstração necessita de uma ancoragem literária. Por esta razão, é importante frisar e fixar ideias, as quais são muito mais superiores do que letras e nomes.

        No início do parágrafo anterior citei a queda e o retorno. E poderíamos dizer que, a partir do "mergulho" na densificação da matéria, iniciamos um processo evolutivo. E tal evolução é confirmada pela ciência, não apenas quando o hominídeo começou a andar de forma ereta, mas desde que se formaram os primeiros rudimentos daquilo que a própria ciência chama de "vida". O homem comum tem sua evolução espiritual, que segue o princípio do "retorno", atrelada à disposição evolutiva do encadeamento natural. Porém tal disposição, como atestam unanimemente os maiores expoentes do evolucionismo, se faz através dos milhões, senão bilhões de anos, morosamente, limitada por inúmeros ciclos cósmicos, onde as "ondas de vida" sofrem suas transformações. "A natureza não dá saltos", já disseram e continuam dizendo os grandes pensadores, porém, o ritmo ascensional do espírito humano pode saltar sobre a morosa jornada evolutiva, superando a natureza da materialidade, galgando a patamares além da perspectiva natural do mundo, impulsionada pela espiritualidade que transcende todo aspecto da concretude material. Este salto, além da perspectiva mundana, é o caminho da iluminação, que se dá a partir do momento no qual o ser descobre que sua natureza é espiritual, e começa a se libertar do jugo das sensações puramente físicas, e vivencia este momento de despertar. Seu veículo passa ser o espírito, não mais a "mente".

 

       Encontrei no livro Isis sem Véu, volume quarto, uma citação que Blavatsky faz de uma antiga obra: "Mais valioso que a soberania da Terra, do que a glória do céu, que o domínio dos mundos é o prêmio de quem dá o primeiro passo na senda da santidade". Este primeiro passo é o "momento do despertar". É em cima desta "senda da santidade" que damos início daquilo que a "nomenclatura", ainda que antiga, nomeia os seres que trilham tal senda: os Boddhisattvas.

       Segundo a escola budista Mahayana (do sânscrito, "maha": grande, "Yana": veículo— o Grande Veículo) tal nomenclatura provém da linguagem sânscrita, na qual "boddhy", significa iluminando (boddhay: iluminação); e "sattva", que significa ser. Boddhisattva, portanto, significa "ser iluminado". É um ser que está no caminho da buddhaidade, para se tornar um Buddha, mas adia sua iluminação final para servir à humanidade, dentro do mais amplo espírito de compaixão a todos os seres.

        Dois pontos são essenciais de serem registradas: a primeira é a de que Buddha não é o nome de alguém, como tanto se confundem com Sidarta Gautama, popularmente conhecido por Buddha. Sidarta, que nasceu na Índia, meio milênio antes de Cristo, é um Buddha, porque atingiu o estado de iluminação suprema, assim como muitos outros Buddhas, anteriores a ele, e muitos que virão em sua sequência. Buddha é, portanto um estado, ou o título que se dá ao estado de consciência mais sublime, mais elevado.  O segundo ponto é um pequeno comentário, para que  seres como nós, não caiamos jamais na arrogância de sentirmos donos, ou mandatários de alguma verdade. Pois é simplesmente infindável a lista de seres evoluídos, Boddysattvas ou não, que morreram nas mãos de néscios seres humanos, que não compreenderam os ensinamentos destes mestres, e simplesmente os martirizaram por seus conceitos serem antagonistas às suas "verdades". Disse certa vez um velho mestre: "Se algum dia estiver em dúvida sobre dois conceitos, observe qual destes tenta impor com mais vigor a sua tese, certamente este será o mais errôneo".

        Vejamos agora a diferença de alguns conceitos baseados na nomenclatura.

 

 


DIFERENÇA ENTRE BUDDHA E BODDHYSATTVAS.

 

        Buddha, conforme citação anterior, é um ser que atingiu a iluminação suprema, e seu significado literal vem ser "desperto". Pois atinge o despertar para a existência real, que é a amplitude, ou melhor, o clímax da plena sabedoria e compaixão. Buddha é o estado daquele que atingiu o supremo, completo, perfeito e máximo estado de iluminação. É o ser que retornou ao lar sagrado da eterna bem aventurança.

        Diferente de um Buddha, o Boddysattva está no caminho de despertar, um estágio altamente evoluído, mas que ainda não atingiu a Buddhaidade. É um ser, próximo à suprema iluminação, que tem o desejo essencial de auxiliar todos os seres nesse propósito, para extinguir-lhes o sofrimento na Roda do Samsara, o ciclo das reencarnações. Deste modo, um Boddhysattva está próximo ao despertar supremo, cujo grau não aspira apenas para si, mas para todos os seres.

 


 AS ASPIRAÇÕES BÁSICAS DO BODDHYSATTVA.

 

        As aspirações básicas do Boddhysattva são chamadas no budismo Mahayana de "Os Quatro Votos Universais".

São eles:

        1. Os seres sencientes são inumeráveis, faço votos de guiá-los à libertação.

        2. As aflições mentais são infinitas, faço voto de extingui-las por completo.

        3. Os métodos do Dharma são ilimitados, faço voto de estudá-los e aprendê-los.

        4. O caminho de Buddha é insuperável, faço voto de trilhá-lo até a realização.

 

 


                    OS CAMINHOS.

 

        É importante citar que os ensinamentos do Buddha Sidarta Gautama, fizeram dois caminhos principais, a fim de que se possa trabalhar o potencial existente no homem e na natureza essencial da vida, o Caminho Maior, ou o Grande Veículo, e o Caminho Menor, ou Pequeno Veículo.

        O Caminho Menor, Hinayana, cujos seguidores na iluminação  se denomina Shravakas, "aqueles que acatam o ensinamento". Consideram a felicidade do mundo como superficial e ilusória, e encontram sua força na meditação. Possuem como meta essencial se tornar um Arhat, aquele que atinge a iluminação, e o pleno despertar na suprema paz.

        O Caminho Maior, o Mahayana, ou Grande Veículo, cujos seguidores no caminho da iluminação vêm ser os Boddhysattvas, foco deste texto, difere do Hinayana precisamente neste aspecto. Diferentes dos Shravakas, os Boddhysattvas seguem o caminho para tornarem-se Buddha, porém não se retiram para a paz interior, antes se envolvem com o mundo, antes de sua iluminação suprema, auxiliando a humanidade mesmo nos mais baixos planos de vibração. Tanto os Boddhysattvas quanto os Shravakas estão em um patamar de evolução indescritivelmente superior ao homem comum. Ambos estão próximos ao Nirvana, cujo significado é "sofrimento transcendido".

        Existe também o Budismo Vajrayana, que possui o significado de Veículo de Diamante que é o budismo tântrico, profundamente esotérico. É considerado como uma extensão do próprio Mahayana, ou um de seus caminhos, pois alguns autores o consideram como um caminho e não propriamente uma escola diferente.

        Outra escola do budismo, carregada de importância, vem ser o Theravada. É a mais antiga escola budista, cuja significação literal é "Ensino dos Sábios", e, em tais ensinos enfatizam a focalização, nos quais suas experiências estão profundamente alicerçadas. Muitas pessoas confundem Theravada com o Hinayana, o que vem ser um grande erro advindo do desconhecimento da essência fundamental de ambas as escolas.

        Para adentrar detalhadamente nos conceitos do budismo e do próprio estado de Buddha seriam necessário inúmeros textos suplementares, sem contar que existe uma vasta literatura, tão vasta quanto à complexidade filosófica deste tema cuja abrangência pressupõe diferentes níveis de interpretação e entendimento.

 

 

 


           O SENTIDO DE BODDHYSATTVA.

 

        Vamos agora adentrar no verdadeiro sentido daquilo que vem a ser um Boddhysattva e seu relacionamento com a intimidade do ser humano. Podemos observar que a noção filosófica da existência dos Boddhysattvas vem ser, justamente, de um ser que ainda não atingiu a plena perfeição, ou seja, não atingiu o estado de Buddha. Está, no entanto, no caminho ascendente a esta libertação, e, seu inquebrantável desejo é estender este propósito libertador a todos os seres. Segundo nossa interpretação, o Boddysattva está além do ser humano comum e aquém do estado de iluminação presente em um Buddha. Configura-se, portanto, no estabelecimento de uma "ponte" que liga o homem à perfeição, esta que, sabidamente, está muito acima da esfera energética correlacionada aos padrões humanos que conhecermos.

        A maioria das religiões necessita estabelecer esta ponte, acima do gênero humano, abaixo de uma perfeição divina. Que surge como  "rosto humano de Deus", mais acessível, cônscio da natureza terrena, que ensina, protege e auxilia o homem o verdadeiro caminho à divindade, aparentemente distante das imperfeições presentes no mundo físico. No próprio Cristianismo, Jesus faz esta "ponte", esta ligação, como uma expressão divina presente na humanidade — o Varão Perfeito — como se pode ver na Epístola de Paulo aos Colossenses, capítulo 1, versículo 28: "A quem anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando em toda sabedoria; para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus Cristo”.

        Boddhisattvas então se estabelecem, também, como figuras arquetípicas, que, além de se constituírem seres em muito maior adiantamento que os humanos, incorporam as características e virtudes presentes na concepção humana de santidade, se caracterizando como fontes simbólicas de inspiração, assim como auxiliares invisíveis na dificultosa peregrinação humanas nos mundos inferiores. Desta forma, conceberam-se vários Boddhysattvas, cada qual dentro de seu padrão arquetípico, incorporando virtudes diametralmente opostas à corruptibilidade, advinda da insensatez humana. Possuem, consequentemente, os atributos essenciais para que o homem se direcione, dentro dos sagrados propósitos do caminho do retorno, rumo à libertação.

        Existe um símbolo no oriente representado pelo empilhamento de pedras, uma a uma, sobreposta sobre a outra, este proclama a estabilidade, sempre presente na mente de um Boddhysattva. Tal estabilidade é um atributo muito distante dos padrões humanos. Porém, este símbolo se traduz numa forte ancoragem psíquico espiritual, capaz de elevar os humanos além de sua natureza densa. Este símbolo, assim como muitas personificações, que veremos a seguir possuem a arquetípica imagem que o ser humano necessita, impulsionadoras da tomada do caminho espiritual.

 

 

                 


 

                 O QUE SÃO AVATÂRAS.

 

        Pensei ser bom incluir neste texto um assunto muito importante no meio esotérico, muito falado na teosofia e em inúmeras escolas iniciáticas. Muitos já ouviram falar dos avatâras, muitos são os que utilizam o termo "avatares" e muitíssimos são aqueles que desconhecem o que realmente são.

        Avatâra é uma palavra sânscrita, e tem como significado "a descida de Deus". É um termo utilizado no hinduísmo, onde muitas vezes o avatâra é reverenciado como uma divindade.

        Fora do hinduísmo este termo é utilizado para fazer menção às encarnações de diferentes divindades, ou mesmo de seres altamente evoluídos que vêm à Terra instruir a humanidade.

        É a forma encarnada de um ser superior, a manifestação física de uma divindade ou um ser altamente iluminado.

        Podemos dizer, com relação ao próprio hinduísmo, e dentro de suas crenças que Krishna é o avatâra de Vishnu. Onde Krishna se faz a encarnação da pessoa divina de Vishnu. É, portanto,o nome terreno do ser encarnado.

 

 

 


                            OS BHUMI.

 

        Segundo o budismo Mahayana, existem dez Bhumis, que são os dez estágios no caminho do despertar, ou as dez etapas do caminho da iluminação. Cada um desses estágios se revela como um degrau de realização, e, assim como uma escada, composta por dez níveis, cada um destes é a base para o próximo em seu sentido ascensional, elevando-se, gradualmente. O avanço a níveis mais elevados se dá através da sabedoria, portanto, cada degrau vem ser um passo fundamental tanto na evolução quanto no poder que se estabelece em cada um deles nesta senda de iluminação. A "escada" seria o caminho do Boddhysattva que iniciou deu caminho rumo à plenitude, e cada Bhumi seria o nível de elevação na senda. Outro nome destes níveis é Vihara, palavra sânscrita cujo significado é "mosteiro", a morada que se faz em cada um destes estágios. Os bhumis são descritos na "Sutra das Dez Etapas", antiga escritura do Budismo Mahayana.

 

        1°. Estágio: Chamado "Pramudita", que na linguagem sânscrita significa "Muito Alegre", pois o Boddysattva se encontra em estado de júbilo por ser agraciado com a superação dos "três impedimentos", os quais são os desejos mundanos; o obstáculo do Karma e o chamado "obstáculo da retribuição", que é a submissão às autoridades mundanas. Neste primeiro estágio o Boddhysattva alcança a espontânea e suprema generosidade, possuindo também o elevadíssimo poder do controle das vibrações de luz. Ele se regozija com o recebimento de um parcial aspecto da verdade, mesmo sabendo que é parcial, diferentemente dos seres humanos espiritualmente arrasados que, quando aceitam algo como "verdade", fazem desta uma verdade total em sua visão embaçada da realidade, atacando, como "mentira", todas as ideias e conceitos conflitantes com sua errônea concepção de verdade absoluta.

 

        2°. Estágio: Seu nome, em sânscrito, é "Vimala", que significa "sem máscara". Pois, de maneira natural, se afloram as mais plenas ações, engendradas na virtude, do corpo, da mente e da expressão, fazendo com que a ética moral se torne perfeita em seu maior estado de sublimação. Ele se torna o "Senhor das Preciosidades", auxiliando os seres no elevado caminho da libertação.

 

        3°. Estágio: Chamado "Prabhakari", "brilhante" em sânscrito. Nasce a luz pacificadora da sabedoria, a qual irradia a todas as direções. São aniquilados o desejo e o ódio, e, consequentemente, atinge a paciência suprema, assim como a plena visão dos mundos e os diferentes planos de vibração e existência.

 

        4°. Estágio: Seu nome em sânscrito é "Archisthamani", e significa "Radiante". A luz da sabedoria faz com que reconheça a irreal condição de "Maya" (ilusão das coisas transitórias), o ilusório mundo da impermanência, tornando-se, à partir deste grau, o cultivador das ações que buscam propagar a luz. O fogo da suprema sabedoria incinera as mundanas considerações.

 

        5°. Estágio: Em sânscrito denomina-se "Sudurjaya", cujo significado vem ser "difícil de superar". Nesta fase, ou etapa, reconhece, assimila e vivencia a essência das nobres verdades. Supera todas as dúvidas, e, da mesma maneira, as aflições, a ilusão e todas as formas de ignorância.

 

        6°. Estágio: Vem ser o "Abhimukhi", que significa "aproximação" ou "manifesto". Aproxima-se ou manifesta as qualidades de um Buddha, pelo sábio e diferenciador discernimento, assim como também pelo mergulho na quietude glorificadora, a quietude do espírito que pacifica toda essência interior suplantando o orgulho e toda pretensão advinda dos desejos. A sabedoria se manifesta, como uma rajada de luz, eliminando todas as sombras presentes no ego.

 

        7°. Estágio: É o "Duramgama", que significa "afastado". Adentra no perfeito equilíbrio, e com ele, perfaz a direta realização das verdades eternas, suplantando os vínculos com a essência egoica.

 

        8°. Estágio: Tem por designação sânscrita a palavra "Achala", que vem ser "Vigoroso". Habita firmemente a verdade do Caminho do Meio, tornando-se inabalável. Jaz na impassibilidade, acima de todos os enunciados, pois já vivencia a essência cósmica consubstanciada na verdade. É o grau elucidação.

 

        9°. Estágio: "Sadhuma", cujo significado é "Perfeita Inteligência", sendo a completa realização individual. Torna-se o conhecedor de todos os pensamentos.

 

        10°. Estágio: O décimo estágio é chamado "Dharma-Megho", "Nuvem do Dharma". Consagrado com as "excelentes chuvas das luzes". Possui a infinita e eterna sabedoria.

 

 

 


                      OS MAHASATTVAS

 

        A palavra Mahasattva provém do sânscrito; "maha" grande; "sattva" ser. Literalmente, traduziríamos como "grande ser". Seria correta a designação como "um grande ser iluminado”, e vem ser bodhisattva que atingiu pelo menos o sétimo dos dez bhumis.

        Geralmente personificar figuras arquetípicas que salientam virtudes que o ser humano deseja alcançar, assim como poderes dos quais os seres humanos necessitam para resguardar seus caminhos trilhados entre suas próprias imperfeições.

 

        1. Manjusri. Literalmente manjusri significa "suave glória", na linguagem sânscrita. Vem ser o mais antigo dos Boddhysattvas. Traz em si a figura arquetípica da sabedoria transcendente. Esclarece os pontos mais difíceis dos ensinamentos. É o Boddysattva da sabedoria, mas traz em si a força que esta sabedoria representa. É representado, portando,  com uma espada em suas mãos, a "Vajra", que simboliza a ação penetrante do poder da sabedoria, que atravessa e liberta os seres da ignorância e de "Maya", as ilusões que entorpecem o entendimento.

 

        2. Samantabhadra: Do sânscrito: o “digno universal". ("Samanta", algo universal; "bhadra", algo bom). Está associado à prática da meditação. Percorre o mundo em todas as direções predispondo a harmonia interior, essencial àqueles que iniciam e trilham a senda meditativa.

        É o patrono da Sutra do Lótus,  é um dos sutras da escola Mahayana mais conhecido e que também exerce maior influência nos estudantes. Neste Sutra, segundo muitos autores, contém os ensinamentos finais de Gautama Buddha, com os ensinamentos necessários para a plena iluminação.

        Samantahadra é também conhecido por ter feito os "dez grandes votos", que enlaçam a perspectiva e o propósito de todo Boddhysattva.

 

        3. Mahasthamaprapta: Do sânscrito "maha" significa grande; "sthama" significa poder e "prapta" aquele que traz. É, portanto aquele que traz a grande força. Traz em si a imagem arquetípica que configura a força de superação, a vontade que determina e o dinamismo que inaugura a vitória. Em suas representações traz a flor do lótus em suas mãos, a qual é um símbolo da emancipação, a flor que supera o lodo exalando a beleza contrastante.

 

        4. Akasagarbha: Seu significado, do sânscrito, vem ser: "gharba", tesouro; "Akasa", espaço ilimitado, portanto, "tesouro do espaço ilimitado". Pois sua sabedoria é considerada ilimitada como o próprio espaço. Está associado ao grande elemento "Akasha", de cuja sutileza se engendram a concretude dos mundos. Configura-se, portanto, com a figura arquetípica diretamente relacionada ao Akasha, a qual se constitui como a essência, e todo seu adjacente poder transformador.

 

        5. Kṣitigarbha: É o Boddysattva dos Grandes Votos. "Ksiti", na linguagem sânscrita, significa Terra, "garbha" significa Ventre. Seria "aquele que abriga a Terra", ou não literalmente, "tesouro da terra". É aquele que fez os inabaláveis votos de suporte e acolhimento de todos os seres, votos estes sólidos e extensos como a própria terra. Gautama Buddha descreve na Sutra sobre os votos originais do Boddhysattva Kstigarbha que este, em muitas vidas, atuou como filho ou filha buscando o direcionamento de seus pais no caminho sagrado da iluminação, por esta razão, se apresenta como uma figura arquetípica do amor filial, no respeito, no zelo e no mais pleno espírito da gratidão. Suas representações comuns aparecem como um monge em cuja cabeça há uma espécie de auréola, carregando um bastão, para escancarar as entradas dos mundos inferiores, e uma pedra cintilante para trazer a luz nos sombrios caminhos da insensatez.

 

        6. Sarvanivarana - Vishikambhin: Ele é o removedor dos obstáculos para garantir as práticas meditativas

        Sua figura arquetípica, contudo, carrega em si a virtude de aplainar os caminhos, removendo todos os obstáculos que as sugestões contrárias podem interpor na senda da iluminação.

        Suas representações se configuram como um monge com uma pele de tigre em volta da cintura e uma guirlanda na cabeça.

 

 


        7. Avalokitesvara: Literalmente, do sânscrito, vem ser "aquele que ouve os clamores do mundo". É o Boddysattva que corporifica a compaixão, o amor e a benignidade. Alguns autores denominam-no simplesmente como Buddhas da Compaixão.

        O Sutra do Lótus (Saddharma Pundarika Sutra), que é o ápice da literatura budista, faz a ele referência como capaz de assumir os mais diferentes aspectos, os quais são possíveis de se constatar através das representações que se faz do Avalokitesvara nas diferentes culturas do continente asiático, que vão desde as formas que se expressam com a ostentação de grande poder às mais humildes e simples configurações, sejam humanas ou não humanas, masculinas ou femininas, que buscam encaminhar todos os seres nos caminhos da iluminação. Diz-se que o Avalokitesvara é um antigo Buddha, das eras pretéritas, que, após a sua plena realização, se manifesta como um Boddhysattva, renunciando ao Nirvana para auxiliar a humanidade.

        Conforme mencionado acima, o Avalokitesvara assume diferentes formas em diferentes culturas, entre as quais os gêneros, masculino e feminino. Entre as figuras femininas a mais conhecida vem ser Kuan Yin, que em chinês significa "observa os clamores do mundo". Também conhecida como a Deusa da Misericórdia, Kuan Yin é o modelo arquetípico da compaixão, da misericórdia e do amparo. Amplamente conhecida na Ásia, a partir do século vinte tornou-se conhecida no ocidente, e seu modelo de mãe acolhedora despertou nos países ocidentais elevado sentimento de veneração.

        Muitos são aqueles que se concentram no nome e na figura dos Boddhysattvas para com que seja estabelecida a conexão com os aspectos transcendentes que emanam de sua configuração.

 

 


        8. Boddhisattva Maitreya:

 É o Buddha do futuro. Virá quando o mundo, em sua maioria, tiver olvidado o verdadeiro sentido do Dharma, "o caminho correto", a senda da perfeição. Segundo as escrituras, reiniciará o atual ciclo iniciado por Sidarta Gautama Buddha. Seu nome provém da raiz sânscrita "Maitri" que significa "o amoroso". Existem inúmeros cálculos sobre a data da chegada de Maitreya, desde cálculos de que já tenha chegado até um futuro de milhares de anos. É, no entanto, uma incógnita a o período de seu advento. É também muito provável que possa adentrar em nosso meio com a chegada da Nova Era de Aquário.  Por esta razão, muitos fazem a este a referência como “O Buddha da Era de Aquário”.

 

 


          Há uma história que, alegoricamente, enuncia a natureza essencial de um Boddhysattva.

        Dois homens, extremamente sedentos, atravessavam uma terra de acentuada aridez, e, após uma longa e extenuante caminhada, deram por encontrar, atrás de uma inóspita colina, uma fonte de água límpida. Após saciarem a sede, seus olhos como que se abriram, e notaram que a fonte fluía para uma grota, formando um pequeno riacho que se avolumava mais e mais conforme descia às terras baixas. Subindo em uma elevação, notaram que o riacho, gradualmente, era cercado por terrenos cada vez mais férteis, até  engrossar o arvoredo, como um paraíso que, lentamente, se formava substituindo o panorama desértico.

        Um deles diz assim: "Meu Irmão, sigamos o rio. Chegaremos às planícies férteis e colheremos os frutos das incontáveis árvores que vemos mais adiante!"

        Ao qual o outro replicou: "Eu votarei atrás dos nossos outros irmãos que estão ainda perdidos no deserto, para que, assim como nós, sorvam desta água cristalina, e possam retornar à vida".

"Está bem, meu irmão, sua intenção é sublime, e faço dela um aprendizado em minha alma. Porém segurei o caminho do rio, e poderei ajudar a todos quando reencontrarmos”. — Disse o outro.

        Terminadas suas palavras desceu o rio. O outro, porem, retornou à sequidão fazendo, a cada quilômetro, marcos de pedra para resguardar os caminhos da salvação. Este último é um Boddhysattva.

         Sempre necessitamos daqueles que conhecem os caminhos das fontes, e deveremos ter a humildade de aceitar suas instruções, da mesma maneira que este possui a humildade de retornar a atenção àqueles que vagam sem rumo nos desertos da existência.

        Mais sagrado que uma fonte nas paragens inóspita é aquele que retorna para indicar seu caminho. Abençoado é aquele que aprende. Abençoado é aquele que ensina. Tudo tem uma finalidade, nada é por acaso, só nos completamos plenamente quando vivenciamos a perfeita unidade. Esta é a plenitude do Amor. Todos somos Um.

 

       Namastê


 

sábado, 29 de agosto de 2020

ESTADOS MEDITATIVOS AVANÇADOS



        ESTADOS MEDITATIVOS AVANÇADOS.

        Vamos iniciar deliberando sobre a meditação partindo das técnicas clássicas mais antigas do Raja Yoga, cujas oito etapas vem a ser o Yama, que são as interdições, ou seja, aquilo que o yoguin deve se abster de praticar; o Niyama, que são as prescrições,  ou as metas e perspectivas que o discípulo deve perscrutar; o Ássana, que é o domínio do corpo físico, que se dá através de posturas e práticas específicas, como base preparatório para as etapas procedentes; o Pranayama, que é o domínio do Prana, o controle do alento (Já vimos o que é o Prana em textos anteriores); o Pratyahara; o Dharana; o Dhyana e o Samadhi; nestes últimos iremos nos deter um pouco mais.






                         O PRANAYAMA.

        É essencial o conhecimento desta prática, pois confere a absorção da energia prânica, que nos advém através da respiração, e promove o alinhamento e a ativação dos Chakras, através de condutos etéreos, chamados Nadis, que circundam os Chakras conferindo-lhes toda energia ativadora.
        Observemos, primeiramente, algo que ocorre em nossa fisiologia corpórea e que, no entanto, nunca foi notado pela ciência oficial. A cada duas horas uma de nossas narinas se acha menos obstruída que a outra, ou seja, em uma narina o ar flui mais livremente que a outra, e assim vai se alternando sempre neste período aproximado de duas horas. (Isso tem a ver com os doze períodos de duas horas existentes nas 24 horas do dia; são as horas zodiacais sobre as quais abdicaremos a dissertação devido ao aditamento que acarretaria ao texto, fugindo sobremaneira do tema central do texto).
       Esta alternância de duas horas, na qual uma das narinas se torna mais livre que a outra, é o meio, pelo qual, a natureza se dispõe a manter a ativação de nossos Chakras. Contudo, os errôneos hábitos adquiridos por nós, humanos, alguns dos quais inerentes à vida moderna, fez com que, especialmente os ocidentais, adotassem uma respiração superficial, utilizando apenas 1/3 da capacidade dos pulmões, fazendo com que limitadíssima quantidade de Prana atingisse nossos Chakras, afastando-nos efetivamente do "mundo energético", perceptível através da ativação dos Chakras.
        O Pranayama é a "respiração alternada", chamado entre os Yogues "Vama-krama"; e faz com que, em uma rápida alternância na força das narinas, acelerarmos, em alguns segundos, aquilo que na natureza demoraria duas horas, e em uma intensidade e eficiência três vezes maior.

        Observemos este antigo verso do oriente, nele está contida toda a técnica do Vama-krama:
        (É muito positivo passar as escrituras "veladas", para que nos familiarizemos com o modo secreto, no esoterismo, de serem transmitidos antigos mistérios).

        143 é o número da mística consagração.
        Nele está o adicionamento do mistério setenário.
        Em sua efetividade o Prana penetra através da Lua no período florescente de Buda.    Dormita quatro vezes no tabernáculo sagrado.
        E esvai-se, através do Sol, à sombra das duas flores douradas.
        Reinicia a jornada no inverso sentido penetrando o sol, em sucessivas alternâncias.

        Aqui está toda descrição da técnica do Pranayama. Vejamos a proporção 1-4-2, e veremos, posteriormente, que perfaz a sequência 8-32-16, é só multiplicar por 8.
        No versículo em que o Prana penetra a Lua: o ar penetra através da narina esquerda, lunar, o Nadi Ida; no período florescente de Buda, que é o Chakra Vibhuti, de oito pétalas. Esta inspiração, cujo nome no yoga é Puraka, deve ser feita tampando a narina direita, para que o ar penetra pela esquerda, lunar, pelo tempo de oito batidas do coração.
        Dormita quatro vezes no tabernáculo sagrado: retém, prende o ar, por um período quatro vezes maior, ou seja, 32 batidas do coração. Esta retenção chama-se Kumbaka entre os Yogues.
        Esvai através do Sol à sombra das duas flores douradas. A narina solar é à direita, o Nadi Píngala; e as duas flores douradas são duas vezes o 8, o número de pétalas douradas do Vibhuti, que dá o número 16. Portanto, obstrui a narina esquerda e solta o ar pela direita no tempo de 16 batimentos cardíacos. A expiração no Yoga chama-se Rechaka.
        Reinicia a jornada em sentido inverso: faz o caminho contrário — obstrui a narina esquerda, inspira por oito batimentos cardíacos, prende o ar por 32 batimentos, obstrui a narina direita e solta o ar pela esquerda pelo tempo de 16 batimentos. E assim vai alternando.
        Resumidamente, o Pranayama consiste na respiração que se faz alternando-se as inspirações e expirações com as narinas direita e esquerda, seguindo seus tempos predeterminados segundo os batimentos do coração.
        Inicialmente 3 ou 4 minutos são excelentes. Pode ir aumentando gradativamente com o tempo. A hora que o sol está nascendo é momento o ideal.

        Mas o que tem a ver este exercício para a meditação?

        Quanto mais ativados estiverem nossos Chakras, mais energia flui dentro de nosso ser.     Estaremos carregados das energias que interpenetram os planos, ficaremos muito mais ligados ao mundo espiritual e, consequentemente, à própria espiritualidade, que nos distancia da concretude material, algo essencial para quem deseja abstrair-se da vida corriqueira do mundo físico.




                       O PRATYAHARA.

        É, nas etapas do Raja Yoga, o início da penetração no íntimo do próprio ser. É como se invertesse toda a atividade mental que utilizamos no dia a dia, desligando-nos dos sentidos físicos para aplicar nosso foco sobre os sentidos interiores. Sucede ao Pranayama, na sequência das etapas, justamente quando começamos a ter uma percepção muito maior daquilo que está além daquilo que chamamos, erroneamente, de "realidade" física, pois desligamos nossa mente dos sentidos. É uma etapa de subjetividade, em contraste com a objetividade das etapas anteriores. Dessa forma, a mente inicia um processo de purificação. (É muito comum no Pratyahara, logo de início, a percepção do mundo espiritual). O Pratyahara vem ser o rompimento de tudo aquilo que é externo; o bloqueio das vibrações que nos chegam do mundo exterior, captadas através daquilo que os mestres denominam Jnana-Indryas, os correspondentes energéticos dos nossos órgãos físicos de sentido em conexão com os receptores da mente. E são justamente estes receptores da mente que serão desligados, através do Pratyahara, cessando o pensamento, para que a mente atue livremente, livre de imaginações, de expectativas, preocupações ou cuidados, atenuando gradativamente toda efervescência mental, e, com a contínua prática, desligar-se de toda percepção objetiva, adentrando na verdadeira realidade da conexão com o infinito.




                        O DHARANA.

        Dharana vem ser a concentração.
        É muito comum existir uma dúvida, entre os iniciantes que adentram no estudo do ocultismo, a qual vem ser a diferença entre concentração e meditação. Por isso penso ser essencial fazer uma breve revisão sobre estes termos.
        Concentração significa centrar o pensamento, focar determinada área e lançar toda sua atenção a este centro, ater neste alvo determinado, sem se desviar do mesmo.
        Meditação já é o estado de fluir a mente, relaxar e flexibilizar o pensamento;  é o descanso da mente deixando com que ela percorra seus caminhos em uma jornada interior, refletindo na quietude mental, retornando à essência do próprio ser, além da consciência presente na vida cotidiana. É a arte de responder sem reação, alcançar respostas sem reações às questões pelas quais se buscou o esclarecimento.
        Voltando ao Dharana, esta vem ser o trabalho acima da noção de individualidade   (Ahamkara–noção de individualidade na linguagem sânscrita). Este "trabalho" adentra à supra consciência — estado superior de consciência após o vazio mental do Pratyahara. No Dharana fiscalizamos um objeto, especialmente as suas vibrações não captadas pelos sentidos físicos, observamos e fazemos a conexão com o objeto e todas suas relações com o universo.
        É interessante notar o relato de um Yogue quando ensinava o Dharana aos seus discípulos.        Ele começou sua concentração em uma determinada figueira junto ao pátio do mosteiro, primeiro concentrou sobre seu caule, suas folhas, seus frutos, raízes e galhos. Depois sua concentração se tornou tão poderosa que ele se identificou com a figueira. Ele passou a ser a figueira, sentir o vento, o sol, a chuva, o sereno incidindo sobre ela, sem pensar, sem analisar, apenas sentir, identificar, focar tão completamente que se adentrou na essência de ser, de existir e de compartilhar o mesmo sequenciamento universal de existência.
        As etapas do Pratyahara, Dharana e Dhyana se sucedem, de maneira imperceptível, naturalmente, sem o auxílio de quaisquer esforços.






                            O DHYANA.

        É o Dhyana a própria meditação que não se alcança através de raciocínios. É o estado de supra consciência que revela todas as coisas, apenas sentindo, sem que haja qualquer perspectiva analítica, qualquer raciocínio, qualquer esforço do intelecto. A partir do objeto focalizado através da concentração e sua conexão mental, nos deixamos fluir através desta conexão, deixando seguir o fluxo do sequenciamento universal. É o caminho através do qual o ser percorre as trilhas insondáveis da existência, do eterno e do infinito, onde a natureza de todas as coisas se desnuda diante de nossos olhos, revelando a beleza de cada manifestação inserida na imanência de todas as manifestações.
        Disse um mestre a seus alunos sobre o Dhyana: "Há um rio sagrado que nasce no Nirvana, e ele percorre todas as mais belas regiões se você soltar um barco na sua correnteza; ele passa pela casa de todos os mestres e pelas mais a aprazíveis cidades. Porém se você tentar remá-lo o barco não vai a lugar algum, é preciso que encontre este rio e deixe o barco te levar”.
        "Onde encontro este rio e depois como faço para parar o barco?" — Indagou um aluno.
        "Este rio corre dentro de você, e o barco o seu Eu real, sua consciência. Este rio tem um nome: Dhyana o chamamos".

        Deste estado de meditação se chega espontaneamente ao Samadhi, que é o estado de maior expansão de consciência. É a consciência cósmica, a energia fundamental alcançada e vibrante em tudo, o Sat-Chit-Ananda, a plena existência, a plena sabedoria e a plena alegria do Espírito.
        Nosso foco essencial, porém, sobre o qual denota este texto, é a meditação, cuja essência é o próprio Dhyana, e neste tema iremos penetrar mais minuciosamente, seguindo os diferentes aspectos que cada pessoa vislumbra a partir desta etapa.
        Cada pessoa difere da outra em incontáveis características, que vão desde a evolução espiritual até seus dons extra físicos, os quais seguem uma linhagem do DNA espiritual.
        Uma pessoa com elevado grau de afinidade extra física, ou, em outras palavras, mediunidade, a partir do desprendimento que se dá no Dhyana, terão seus dons exacerbados.   Sabemos que meditação é algo muito diferente de desdobramento, de projeção astral e de contatos extra físicos, mas uma coisa leva a outra.
       No próprio Pranayama são ativados todos os Chakras que condicionam a pessoa à percepção dos mundos espirituais. A partir do Muladhara, ou Chakra Raiz, o Prana faz com que a telúrica energia latente do Kundalini seja despertada, e esta, gradativamente ascensiona aos demais Chakras que lhe sucedem na linha ascendente do Sushuma, o Nadi central, ao lado de  Ida e Píngala, já mencionados anteriormente. E, uma vez alinhados e ativados os sete Chakras do Corpo Etéreo, são potencializadas todas as percepções do mundo astral e, não somente o astral, uma vez que o Chakra Coronário, ou Sahashara, possui conexão com os planos superiores de sutilíssima frequência vibratória. Dessa forma, quem segue as etapas nas quais o Pranayama precede ao Dharana e o Dhyana, já adentra na etapa da meditação em um elevado grau de adiantamento nas afinidades extra físicas. E este detalhe deve ser considerado inequivocamente dentro do estudo ocultista. A meditação não pode ser vista apenas em sua superficialidade, pois está condicionada às características intrínsecas de cada indivíduo que trilha seus caminhos.
        Seguindo a própria fluidez da meditação, poderá ocorrer o desdobramento astral assim como inúmeros fenômenos de natureza espiritual, uma vez que, o simples isolamento das sensações físicas, favorece a expansão da consciência dentro dos domínios dos planos sutis de evolução.
A meditação seria, como disse o mestre Yogue, o pequeno barco deslizando sobre as águas do rio sagrado, onde o verdadeiro guia é o mestre interior de cada um.  Jiddu Krishnamurti, em sua obra, “Viagem por um Mar Desconhecido”, diz que todo aquele que realmente queira investigar a questão da meditação, deve livrar-se completamente do método, simplesmente porque não há nenhum método ou sistema de meditação. E, o mesmo krishnamurti sempre frisou que somos o nosso próprio mestre. Não que reprovamos as modernas "meditações guiadas", mas, humildemente, tenho por parecer que a partir de guia, método ou controle, não estaremos entrando perfeitamente no estado de fluidez, e, na meditação, o essencial é "fluir", para que se conflua, espontaneamente, nas novas perspectivas que surgem a partir dos horizontes naturalmente expandidos.
        Durante o sono, a consciência projeta-se naturalmente fora do corpo físico, porém, na grande maioria das pessoas, fica inoperante no mundo astral. A meditação, a etapa do Dhyana, alcançada através dos anteriores passos do Raja Yoga, liberta o ser do restringimento físico.   Um estado profundo de meditação, diferente da seguinte etapa da bem aventurança do Samadhi, está em vivenciar a "realidade mística" dentro da própria meditação, ou seja, no Dhyana. E esta "realidade" consiste na certeza de que não somos o corpo físico, nem mesmo corpo astral, mas somos o Âtman, a essência divina que se conecta com o Todo Universal. Este é o veículo do estado meditativo profundo, que avança muito além das percepções extra físicas.
        Esta realidade é o grande "tesouro escondido em vasos de barro", pois está em nós, e não fora de nós. A filosofia oriental diz que devemos simplesmente sentir o Eu Superior, pois nem ao menos precisamos procurar aquilo que já somos. Adentrando neste estado avançado de meditação, simplesmente descobriremos nossa essência, além das roupagens em corpos, mentes e egos. É o "Eu" adentrando no domínio do "Não Eu".
        Quando, através da meditação, percebemos que o "Eu" é uma mera ilusão da temporalidade, poderemos entrar na meditação avançada, mergulhando no Todo e nos identificando com Ele. É o domínio da "eterna presença", na ausência total dos obstáculos, assim como também livres, do espaço e do tempo.
        Disse Krishnamurti, também em sua obra Viagem por um Mar Desconhecido: "Em qualquer coisa que existe continuamente no tempo, não há nada de novo. Só quando há um fim, surge uma coisa nova". Este fim é a consciência da ilusória noção do "eu", esta consciência Krishnamurti chama de "espaço sem o centro", isto é, a ausência do observador, o eu inferior.
        "A liberação," — Diz novamente Krishnamurti na mesma obra — "por conseguinte, requer que cada um descubra por si próprio o que é "espaço sem centro".  Descobrir este espaço, sem que haja qualquer esforço, é o grande objetivo da meditação. Adentrar neste espaço é a Meditação Avançada, para a qual nossas palavras humanas são incapazes de traduzir-lhe a essência.

       Qual é a característica da pessoa quando entra nesse estado de meditação profunda ou avançada?

        A pessoa se encontra em um estado suspenso de animação. Como se estivesse desligada. É comum nos estados de meditação a posição do Ássana do Lótus, ou outra posição qualquer com a coluna ereta, contudo, na meditação profunda não há necessariamente uma regra de posicionamento. Há, na verdade uma ausência de regras.
        Como disse anteriormente, cada pessoa possui uma tônica particular, uma natureza intrínseca, um padrão próprio inerente a ela mesma, assim como também há diferentes graus a serem alcançados para que seja avançada ou aprofundada a meditação. Nem todos possuem um mesmo estágio espiritual e também de experiência para tal estado meditativo. A vivência de um Yogue na Índia que, desde a infância, faz uso da meditação, será muito diferente de uma jovem americana que frequenta uma academia de yoga. Cada um com sua natureza, cada um com seu aspecto, cada um com seu grau. Na medida em que adentram plenamente no domínio do "Não Eu" todos se tornam iguais na unificação com o Todo. Existe a palavra "adentrar", assim como também existem as palavras "parcialmente" e "plenamente", como citada há pouco.

        E qual é a característica dessa pessoa, após retornar desta meditação, em sua vida diária, em sua vida normal?

        Tais pessoas tiveram o privilégio inusitado de ver o infinito e contemplar o eterno, e, obviamente, jamais enxergarão o mundo físico com os mesmos olhos antes de ter uma experiência desta magnitude. Serão desprendidos, desapegados, com anseios muito diferentes da maioria dos seres humanos, especialmente da ultra materialista civilização ocidental. Através deste desprendimento inúmeras pessoas são imunes à dor, isentos das preocupações, e alguns com controle mental indescritível, muito comum entre os Yogues da Índia, dos quais falaremos mais adiante.

       O autor Paul Brunton, em sua obra “A Índia Secreta”, nos relata inúmeros encontros com prodigiosas pessoas que desafiam simplesmente a lógica. Neste livro ele relata a história de um faquir, da cidade de Lahore, chamado Haridas, que foi enterrado vivo na presença do Rei Ronjie Singh e inúmeras autoridades britânicas, incluindo um médico inglês. O local onde colocaram Haridas foi guardado zelosamente por vários soldados Sikhs, por um período de 48 dias, no fim dos quais Haridas se retirou em perfeito estado de saúde física. Naturalmente era ele um yogue com experiência em meditação profunda.
        Notemos que na própria natureza existem fenômenos semelhantes aos aspectos dos estados meditativos avançados. Alguns animais entram em estado de hibernação, no qual o metabolismo se reduz a níveis baixíssimos, muitas vezes próximos de uma letargia total, como os ursos, o peixe pulmão e diversos outros animais.
        A meditação profunda influencia os processos neurovegetativos, ocorrendo um hipometabomismo consciente.



                  O Faquir de Uadipur.

        Existe uma doença chamada catalepsia, na qual se reduz altamente o metabolismo do indivíduo, levando-o a um óbito aparente, através do qual muitas pessoas foram enterradas vivas, constatadas em inúmeros casos.
        Geralmente os praticantes da meditação avançada entram em um estado de catalepsia voluntária, o que se explica casos como o do faquir de Uadipur.
        Devidamente documentada, a experiência de Uadipur foi feita na década de 70, com um Yogue chamado Satyamurti. Este ficou oito dias privado de alimentação e sem a ingestão de água. Sua frequência de batimentos cardíacos chegou à zero. Após os oito dias o Yogue retornou ao seu estado normal e voltou calmamente às ruas de sua cidade.


                 Na Antiga Literatura.

        Segundo os Vedas, que são a base do sistema das sagradas escrituras hindus, o Purusha — a consciência pura universal, o Eu Superior que transcende os egos — é obstruído pelo Prakriti, — raiz da materialidade — tornando-se cativo do mundo material.
        A meditação, em seu estado avançado, faz com que ocorra o isolamento de Purusha sobre Prakriti, levando o indivíduo ao renascimento ou Moksha. Sobre este renascimento falaremos mais adiante.
        No Yoga Sutra de Patanjali lemos:
        "O poder da pura consciência se instala em sua própria natureza pura".
        "Só as mentes nascidas da meditação estão livres das impressões kármicas".
        Como podemos ver, a meditação avançada é a chave não apenas do controle pleno do espírito sobre a matéria, mas também a libertação da “Roda do Samsara”, a roda das encarnações, através da queima das sementes kármicas.


        Adendo:



A IMPORTÂNCIA DOS ESTADOS AVANÇADOS DE MEDITAÇÃO NAS INICIAÇÕES DAS ORDENS SECRETAS.

        A experiência em meditação sempre foi essencial nos mais secretos rituais de iniciação, simbolizando sempre a morte e seu renascimento, o túmulo do velho homem e o berço do novo homem renascido na eternidade.
        A meditação era muitas vezes utilizada no treinamento do neófito a fim que enfrentasse a mais difícil iniciação nas ordens ocultas, e é primeiramente sobre esta iniciação que iremos dissertar, pois ela é ainda utilizada em alguns grupos religiosos do Oriente Médio e no Norte da Índia.
        O importante a dizer é que há várias iniciações em uma mesma sociedade secreta, como se fossem determinadas etapas a serem superadas pelo candidato, o qual atinge determinado grau após cada uma das iniciações específicas. Há, porém, a iniciação final, a iniciação que faz do candidato um mestre iniciado, e esta, certamente é a mais difícil, algumas vezes impossíveis a determinados neófitos que ainda não se encontram em devida preparação para superar os rigores com os quais será submetido.
        Na obra Clothed with the Sun, Vestida com o Sol, Anna B. Kingsford afirma que as pirâmides serviam para as iniciações nos mistérios egípcios, sendo que, na Grande Pirâmide, a Câmara do Rei eram realizados os mistérios maiores e a Câmara da Rainha os mistérios menores. O sarcófago, na Câmara do Rei, era colocado o postulante em sua prova final.
        Observamos que tais provas não exigiam apenas a coragem do iniciante, mas também o autocontrole, pois, como veremos a seguir, sem uma experiência de desligamento do corpo físico, seria algo impossível ao postulante. Era necessário um longo preparo prévio em meditação.
        Voltemos ao grande escritor místico Paul Brunton, que, além da “A Índia Secreta”, escreveu “O Egito Secreto”, e é neste livro que ele relata sua particular experiência de iniciação. Segundo o autor, ele estava determinado a passar uma noite dentro da Grande Pirâmide, ou Pirâmide de Kuphu (Quéops). Após adentrar na Câmara do Rei, entrou em meditação, e, através de seu desligamento físico, inaugurou contato com dois sacerdotes egípcios, um deles, então, indicou que ele deveria penetrar no interior do sarcófago vazio. Assim que o fez, novamente em estado de meditação profunda, teve inúmeras experiências extracorpóreas no interior da arca. Quando regressou ao corpo físico, ainda atônito, compreendeu que passara por um ritual iniciático.
        Um detalhe muito importante a dizer é que jamais foram encontradas quaisquer múmias na Grande Pirâmide, apenas na Câmara do Rei se encontra um sarcófago de pedra vazio, sem nenhum resquício de que ali houvesse algum corpo embalsamado no decorrer dos milênios.
        Helena Petrovna Blavatsky diz que o interior da Grande Pirâmide é um Templo de Iniciação, onde o homem ascende em direção aos deuses e os deuses descem em direção ao homem.
        É bem possível que a Câmara de Reflexões, das ordens maçônicas, possua íntima relação com as iniciações efetuadas na Grande Pirâmide, pois representa um túmulo onde deve morrer o homem em seus vícios, para que possa renascer na virtude. É o ventre da mãe terra da qual nascem os homens. — Visita o interior da terra, e nele retificado encontrará a pedra oculta.



                         O Número Três.

        É o número da perfeição, resultado da vivificação das substâncias. O Fohat que fecunda Koylon para a formação do Prakriti, o Mulaprakriti, a raiz da matéria. Representa a primeira figura geométrica perfeita, a letra Ghimel, o terceiro caminho da sabedoria no Sepher Yesirah.
        O número três sempre foi utilizado na sabedoria oculta das ordens iniciáticas, observemos a trindade presente na Índia: Brahma, Vishnu e Shiva; no Egito, Osíris, Isis e Hórus, até no cristianismo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sem contar a trindade cabalística e as inúmeras religiões e filosofias antigas, incluindo toda a base dos conceitos pitagóricos. O três representava também o número essencial do renascimento. Observemos os três filhos de Noé que repovoaram a terra: Sem, Cam e Jafé, o renascimento da humanidade a partir do número três. Tanto os deuses, assim como a alegoria do dilúvio, representam a profunda simbologia metafísica presente neste número.
        Observamos o renascimento do profeta Jonas, que permaneceu por três dias e três noites no ventre do peixe, o qual chamou de Sheol, a morada dos mortos. E também Jesus, os três dias sepultado (contagem inclusiva), antes da ressurreição.
        É o número do renascimento, da novidade de vida, do Espírito imortal. Portanto era o período em que o postulante deveria passar no seio da terra, até seu renascimento como novo homem. Nas antigas ordens, segundo os mestres, estes três dias eram também passados em contagem inclusiva, isto é, parte do primeiro dia, o segundo dia todo e parte do terceiro dia. Iniciava-se no final da sexta-feira, passava o sábado, dia do repouso total, até as primeiras horas do domingo, o dia do Sol, o astro doador da vida.


        Vejamos agora não apenas um grande iniciado, mas um grande iniciador, IMHOTEP. No antigo Egito os iniciados traziam em suas estátuas e desenhos o símbolo da própria Iniciação, que era a serpente naja sobre seu Chakra frontal, ou Ajnã. Imhotep sempre era assim representado. Já iniciado, construiu a Pirâmide de Saqqara, a pirâmide escalonada. Conhecido também pelo nome de Toth, o escriba de Osíris, Imhotep possuía o elevado conhecimento dos atlantes. Seu conhecimento era tão vasto que era chamado pelos gregos de Hermes, o Trimegistus, ou seja, três vezes grande, pois consistia em três encarnações em uma mesma consciência evolutiva: Hermes, Toth e Imhotep. Aqui vemos novamente o número três, os três dias da morte individual para o renascimento cosmológico. Vemos, portanto, o número três na sequência do grande pai das ordens iniciáticas, e, consequentemente os três dias do indivíduo morto aguardando seu renascimento em verdade e espírito.
        Este período, em que o indivíduo era mergulhado no útero da mãe terra, só era vencido se este tivesse o prévio preparo meditativo, a consciência elevada à magnitude de luz para se desgarrar da irrealidade física, vencendo a matéria, superando a morte, e renascendo no Todo, na glória imortal da virtude celeste.

       Paz e Luz.